“Quarteto de cordas para enforcamento” por Viegas Fernandes da Costa | Liquidificador Comunicação e Arte

“Entre fezes e urina nascemos.” Para além de preceito moral que possa indicar humildade, insistentemente trabalhamos para esquecer esta máxima de Santo Agostinho, porque da distância de nossas origens e instintos – suposta distância – construímos nossa civilização judaico-cristã. O que Gregory Haertel lembra, entretanto, neste “Quarteto de cordas para enforcamento”, é que não somente nascemos entre fezes e urina, mas que desta matéria somos também constituídos e envolvidos.

 

Não há, portanto, indulgência na poesia deste “Quarteto”. Poesia? – pode perguntar o incauto. Mas não se tratam de contos? Sim, formalmente são contos. Porém tal qual Hilda Hilst, que escrevia com as vísceras, a prosa de Gregory Haertel nos nove contos e uma novela que compõem este livro, bem como todo seu universo ficcional, constitui-se enquanto grande poema destes tempos que correm, desta civilização austera e mesquinha, deste humano demasiadamente humano, demasiadamente corpo, demasiadamente desejos, demasiadamente fezes e urina que insistimos esconder sob a lâmina de um discurso higienizador, sob o peso de um prussianismo que cancera nossas entranhas sociais, sob o verbo que disciplina a carne lacerada e que pende enforcada nos lustres do iluminismo e nas velas dos monoteísmos, nossos velhos conhecidos.

 

Em “Quarteto de cordas para enforcamento” tocam os instrumentos putas, padres e pastores, indigentes e indulgentes, pais, mães e professores, sombras de todas idades, velhos, viris e infantes. Para além dos destroços de nossa urbana civilidade, para além de toda escatologia, dos paus e bucetas que envolvem a alma, a parte pelo todo, o desvario de uma “História do olho” – por onde já se arriscara Bataille – , caminha Gregory Haertel em desafio ao ato sacro da escritura, imiscuindo-se na perversão da trama, do tempo, da posição daquele que narra, daquele que tara, chafurda no sêmen que escorre pelo ralo e ali, entre água e pentelhos, envolve-se na vida que pulsa potente, tal qual os vermes que pululam na escara, na carne putrefata dos cadáveres que abandonamos insepultos nas sarjetas da nossa estrada.

 

Com sua linguagem crua e ousadia narrativa, “Quarteto de cordas para enforcamento” provoca e lacera, para além da moral, devolve-nos uma poesia capaz de incomodar.

 

Blumenau, Santa Catarina, Brazil
Viegas Fernandes da Costa: historiador e escritor. Autor dos livros “Sob a Luz do Farol” (Crônicas, 2005), “De Espantalhos e Pedras Também se Faz um Poema” (Poemas, 2008) e “Pequeno Álbum” (Contos, 2009). Atualmente trabalha na Universidade Regional de Blumenau, onde edita o site de literatura Sarau Eletrônico e apresenta o quadro “Dica de Literatura da FurbTV. Reside em Blumenau, SC.  http://viegasdacosta.blogspot.com

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