Uma obra é como uma cebola, afirma Barthes ( S/Z. 1970),
“uma construção em camadas (níveis ou sistemas), cujo corpo, no final das contas, não contém coração, núcleo, segredo, princípio irredutível, nada além do infinito dos seus próprios invólucros – que não envolvem senão a unidade de suas próprias superfícies”.
O leitor não apenas “decodifica, ele sobrecodifica; não decifra (…) amontoa linguagens, deixa-se infinita e incansavelmente atravessar por elas:  ela (a obra) é essa travessia”

 

Um curador, ao fazer um recorte de uma obra, ao produzir um texto a respeito dela, se permite o capricho das divagações. No entanto, longe de se pretender portador de uma verdade sobre tal, o curador é também um leitor, espectador, autor e viajante.  Propõe um ‘pensar junto’ sob um determinado viés, mas não lhe cabe explicar, traduzir, complicar, ou – pior ainda – facilitar.

A produção fotográfica da psicóloga Ana Claudia Lubitz – que mantém a fotografia como hobby – é bastante heterogênea e despretensiosa, com uma vasta gama de imagens que vai desde registros de viagens e instantâneos cotidianos até experimentações visuais.

De seu vasto portfolio está aí um recorte, reunindo uma série de fotos que mantêm entre si um vínculo pelos seus aspectos poéticos e visuais.  ‘Outra Superfície’ reúne imagens que não foram feitas em um mesmo momento, nem com uma mesma intenção. São na verdade reencontros incidentais de Ana, como imagens em que a fotógrafa mistura planos e experimenta diversas superfícies, através de diferentes formas de superposição, de transposição e abstração.

Quantas camadas existem entre você e as paisagens capturadas por Ana Claudia?

Com quantas superfícies se relaciona a fotógrafa, e quantas mais você pode incluir?

Reflexo na água, num vidro, o reflexo do reflexo, uma janela, lente, visor LCD, espelho, retina, as impressões de Ana sobre o mundo, impressões adesivadas sobre placas de PVC e as impressões por nós adicionadas, são só algumas das possibilidades.  Convidamos o espectador-autor a pensar a respeito das múltiplas camadas – nem sempre evidentes – que compõem a percepção que temos de algo. Estas fotografias brincam com o nossos olhares de fotógrafo/pensante/espectador, e nos provocam a perceber e buscar as infinitas superfícies que as compõem. 

Aline Assumpção e Charles Steuck
Curadores

 

2012 – MOSTRA SESC DE ARTE CONTEMPORANEA
realização: SESC Blumenau

 

  


 

Exposição Virtual: “Outra superfície”, Ana Claudia Lubitz

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